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UM HOMEM DA RUA
Neudes de Lucena
Um homem,
um simples e pobre
homem da rua,
só,
faminto,
sem rumo
e sem nome;
um homem
que vendo refletida,
através da vidraça,
sua desgraçada imagem,
desesperado
( o mesmo desespero que deu a
Cruz e Souza a coragem de traduzir em sonete,
a angústia da ser preto)
gritou,
gritou
com toda a força
de seu axaurido coração:
Hei! Voce ai..!
Ri..
Ri, triste palhaço
E ele mesmo põs-se a rir.
A princípio,
discretamente,
o riso frio,
riso dos que não pode chorar.
Depois, seu riso foi aumentando,
aumentando,
em intensidade e compasso,
até se transformar num trágico gargalhar,
choro dos que não podem rir.
Gargalhou-tragicômico, gargalhou.
E tanto gargalhou que,
exausto
foi ao chão.
Respirou fundo
e quedou-se estático,
mudo,
ali mesmo,
na rua,
onde sempre viveu.
E, aos poucos,
ao som de buzinas,
roncos,
apitos,
vozes,
riso
e choros,
adormeceu,
para nunca mais acordar.

criado por neudeslucena
21:09:34